segunda-feira, 23 de março de 2015

Geração mimada


A ótima reportagem de Thais Bilenky na Folha de S. Paulo de ontem (22/3) traz aspectos preocupantes ao retratar a chamada “geração mimada”.
Universidades privadas adotam cada vez mais práticas que antes eram características do ensino colegial. São exemplos desse comportamento as reuniões entre pais e professores depois das primeiras provas, o acompanhamento das notas e da assiduidade pelas famílias no portal da instituição, e até, pasme o leitor!, reclamações dos pais diante de eventual  reprovação do filho em alguma disciplina.
Afirma um diretor de faculdade que, nas entrevistas para obtenção de estágios, os pais acompanham os filhos até a sala de espera, e à vezes querem participar da entrevista. A reportagem revela a opinião de determinada mãe que, além de levar a filha diariamente à faculdade, aproveita a viagem para checar as notas, datas das provas, etc. É ela, a mãe, quem compra os livros e o material escolar para a filha.
Segundo a professora Colello, da Psicologia da USP, os alunos “continuam tratando a universidade como escolinha”. Na opinião de Álvaro Bufarah, professor da FAAP, “hoje, o aluno de graduação tem perfil de ensino médio, e o aluno da pós-graduação se comporta como o da graduação”.
Este modo de agir das universidades privadas parece ter muito de jogada de marketing: elas superprotegem os alunos para ganhar a confiança dos pais, aumentando assim o número das matrículas. Na realidade, o que estão promovendo é a infantilização destes jovens, os chamados “mimados”.
Mas é importante observar que o problema tem início bem mais cedo do que o ingresso na universidade. Este “processo de mimar” começa na primeira infância, quando se inicia a deseducação, quando os pais decidem atender a todo e qualquer desejo dos filhos. Eles se esquecem ou ignoram que a frustração é um eficiente desencadeador de aprendizado do processo de pensar.
E por que o fazem? Pelas mais variadas razões: fazem-no por excesso de amor – amor demais estraga; fazem-no por sentimento de culpa, e culpa, cada um carrega a sua; fazem-no por falta de amor, por incapacidade de amar, supondo que suprir bens materiais – pencas de brinquedos – será capaz de compensar a falta de afeto.
Talvez a tudo isso possamos dar o nome de mimar.
Há 3 meses este blog publicou que a tirania das crianças acarretava a  arrogância dos jovens. (http://loucoporcachorros.blogspot.com.br/2014/12/a-tirania-das-criancas.html) O resultado agora é outro, quase que oposto: a infantilização dos jovens universitários e o não desenvolvimento da autonomia no momento adequado. Pobres moços.

4 comentários:

  1. Na edição de domingo d'O Estado há uma foto impressionante. Trata-se da fachada de um prédio na India no interior do qual centenas de estudantes prestavam vestibular. Havia diversas pessoas debruçadas na janela, sobre o parapeito, do lado de fora.. Eram pais dos adolescentes passando "cola" para os filhos. É global?

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    1. Parece, Aldo! Só que na Índia há fatores financeiros envolvidos, pelo menos nessa tal prova, em que os filhos precisam passar.

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